Em 2025, o Brasil voltou a afirmar, em discursos oficiais e documentos normativos, o compromisso com a educação inclusiva. Novas diretrizes foram anunciadas, recursos adicionais foram divulgados e a promessa de uma escola mais acessível voltou a ocupar o centro das falas institucionais. No entanto, para quem vive a escola pública todos os dias, a pergunta permanece: onde está essa inclusão que aparece nos relatórios, mas não se sustenta na prática?
A inclusão que existe no papel
A legislação brasileira é clara. Alunos com deficiência têm direito a:
Estar na escola regular
Receber atendimento educacional especializado
Ter acesso a recursos, adaptações e profissionais de apoio
Aprender com dignidade e equidade
Nada disso é novo. O que muda em 2025 é o reforço do discurso. O problema é que discurso não constrói acessibilidade, não forma professores e não garante aprendizagem.
A realidade que insiste em contrariar a lei
Escrevo não apenas como educador, mas como professor da rede pública que adquiriu uma deficiência ao longo da própria trajetória profissional. Essa vivência revela algo incômodo: o sistema que cobra inclusão do aluno é o mesmo que exclui o professor.
Apesar dos recursos federais específicos para a inclusão de pessoas com deficiência, muitas redes públicas seguem operando com:
Salas de AEE improvisadas ou inexistentes
Profissionais de apoio insuficientes ou sem formação
Professores sobrecarregados, adoecidos e culpabilizados
Alunos “incluídos” apenas para efeito de matrícula
A inclusão, assim, vira um número. E números não aprendem, não sentem e não vivem a escola.
Recursos existem. Compromisso, nem sempre.
Não se trata da falta de legislação ou de financiamento. Trata-se de como esses recursos são aplicados — ou desviados de sua finalidade. Em muitos contextos, o dinheiro da inclusão:
Não chega à escola
Não se transforma em acessibilidade real
Não melhora a prática pedagógica
Não impacta a vida do estudante com deficiência
Enquanto isso, gestores exibem planos, portarias e discursos, e a escola segue tentando “dar conta” do impossível.
Inclusão não é marketing institucional
É preciso dizer com clareza: inclusão não pode ser usada como peça de propaganda. Não é aceitável falar em equidade enquanto alunos seguem sem apoio, professores seguem sem formação e pessoas com deficiência seguem sendo tratadas como problema a ser administrado.
Incluir exige decisão política, fiscalização, transparência e coragem para romper com práticas excludentes historicamente naturalizadas.
Um alerta necessário
Se a inclusão continuar sendo tratada como obrigação burocrática, ela continuará falhando. A escola pública precisa de menos discursos e mais ações concretas. Precisa ouvir quem está na sala de aula. Precisa respeitar quem vive a deficiência.
Inclusão que não transforma a realidade é apenas retórica.
E retórica não garante direito, apenas disfarça a exclusão.