A educação brasileira vive hoje um paradoxo vergonhoso: nunca se falou tanto em inclusão e nunca se praticou tão pouco. Por trás dos discursos bonitos, dos documentos oficiais e das fotos institucionais, esconde-se uma prática recorrente e cruel: o tokenismo. A inclusão virou vitrine. Pessoas com deficiência viraram álibi.
Tokenismo é quando o sistema aceita a presença da pessoa com deficiência apenas para dizer que aceita. Ela está ali para cumprir tabela, atender à legislação, melhorar indicadores ou alimentar narrativas de diversidade. Está matriculada, mas não incluída. Está presente, mas não pertence. Está visível, mas continua excluída.
Na escola, o tokenismo aparece quando o aluno com deficiência é jogado em uma sala comum sem suporte, sem acessibilidade, sem adaptação curricular e sem profissionais preparados. A instituição se declara inclusiva, mas empurra a responsabilidade para o professor, que é abandonado, sobrecarregado e depois culpabilizado pelo fracasso que o próprio sistema produz.
Também é tokenismo transformar a pessoa com deficiência em objeto de espetáculo emocional. O aluno que “vence limites”, o professor que “inspira”, o servidor que “não desiste”. Aplaude-se a superação individual enquanto se nega o direito coletivo. Celebra-se o esforço pessoal para não enfrentar o capacitismo estrutural que bloqueia o acesso, a permanência e a aprendizagem.
É tokenismo quando pessoas com deficiência só são chamadas para falar em datas simbólicas, eventos pontuais ou campanhas institucionais. O microfone aparece, mas o poder de decisão nunca chega. A escuta é decorativa. A participação é controlada. A inclusão termina quando começa o orçamento, o planejamento e a gestão.
Não existe inclusão sem investimento. Não existe inclusão sem formação docente séria. Não existe inclusão sem acessibilidade real. O resto é marketing institucional, é maquiagem social, é discurso vazio para plateia sensível e gestores confortáveis.
Enquanto o sistema educacional insistir em chamar de inclusão aquilo que é apenas presença física, continuará produzindo exclusão com selo oficial. Inclusão não é favor, não é caridade, não é exceção. É direito. E direito não se negocia, não se adia e não se simula.
Superar o tokenismo na educação exige ruptura. Exige confronto com o capacitismo que estrutura a escola. Exige parar de usar pessoas com deficiência como símbolos e começar a reconhecê-las como sujeitos políticos, pedagógicos e sociais.
Se a inclusão não transforma o sistema, ela não é inclusão.
É encenação.

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