sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Inclusão escolar não pode adoecer o professor: responsabilidade dos dirigentes e gestores públicos

 



A educação inclusiva é um direito. Não é favor, não é concessão e não é projeto experimental. É dever do Estado. No entanto, o que se tem visto nas redes públicas é a transferência silenciosa dessa responsabilidade para os ombros do professor — justamente o elo mais vulnerável da estrutura.

Quando a inclusão não acontece como deveria, constrói-se uma narrativa perigosa: a de que o professor é resistente, despreparado ou insensível. Essa construção é conveniente para dirigentes municipais e estaduais de educação e para gestores públicos, porque desloca o debate do lugar correto o da gestão, do orçamento e das decisões administrativas para dentro da sala de aula.

O professor executa a política pública. Ele não define financiamento, não organiza a distribuição de recursos, não contrata equipes multiprofissionais, não decide o número de alunos por turma e não estabelece prioridades orçamentárias. Essas atribuições pertencem aos dirigentes municipais e estaduais de educação e aos gestores que comandam os sistemas de ensino.

E é preciso dizer com firmeza: municípios e estados recebem recursos adicionais para a inclusão de alunos com deficiência. Há financiamento diferenciado, repasses específicos, verbas destinadas ao Atendimento Educacional Especializado, à acessibilidade e à formação. Quando esses recursos não se transformam em condições reais na escola, estamos diante de falha de gestão , não de falha docente.

Falo também a partir da minha própria experiência. Como professor que adquiriu uma deficiência ao longo da carreira, vivenciei o capacitismo institucional e social. Sei o que significa ter sua capacidade questionada, sua autonomia relativizada e sua trajetória invisibilizada. Sei, igualmente, o quanto as formações oferecidas aos professores sobre inclusão são, muitas vezes, superficiais, esporádicas e desconectadas da realidade da sala de aula.

Não há política estruturada de formação continuada em serviço. Não há planejamento sério para garantir tempo institucional de estudo e construção coletiva. Não há, em muitas redes, equipe suficiente para apoiar o trabalho docente. O que existe é cobrança.

E a cobrança vem acompanhada da construção simbólica do professor como obstáculo à inclusão. Essa narrativa não apenas é injusta ela é estratégica. Ao transformar o professor em vilão, gestores evitam discutir a aplicação dos recursos públicos, a ausência de equipe multiprofissional, as turmas superlotadas e a falta de investimento real em tecnologia assistiva e infraestrutura acessível.

A inclusão exige ação concreta:

  • formação continuada permanente e financiada;
  • redução do número de alunos por turma;
  • equipe multiprofissional integrada à escola;
  • infraestrutura acessível como prioridade orçamentária;
  • respaldo normativo claro para adaptações curriculares e avaliações inclusivas;
  • combate institucional ao capacitismo dentro das próprias redes de ensino.

Sem isso, a inclusão vira discurso. E discurso não ensina, não garante acessibilidade e não protege o professor do adoecimento.

É preciso romper com a lógica perversa que exige heroísmo docente enquanto a gestão se exime de sua responsabilidade estrutural. A inclusão não pode ser construída sobre a exploração do trabalho do professor. Não pode ser sustentada pela culpa, pela pressão e pela exposição pública do docente.

A educação inclusiva não fracassa na sala de aula. Ela fracassa quando dirigentes municipais e estaduais de educação e gestores públicos não assumem, de forma transparente e responsável, o dever legal e moral de garantir condições reais para que ela aconteça.

Defender a inclusão é também defender o professor.
Sem responsabilidade pública, não há inclusão — há negligência institucional disfarçada de política educacional.


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