Quando ingressei no magistério, em 2002, o trabalho docente tinha um eixo claro: ensinar, planejar e avaliar. A prática pedagógica era o centro da profissão. Hoje, o que se vê nas escolas é um processo acelerado de burocratização do trabalho docente, que desloca o professor da sala de aula para o preenchimento permanente de formulários.
Relatórios, planilhas, registros repetidos, plataformas digitais sobrepostas e exigências administrativas constantes tomaram o lugar do tempo pedagógico. O professor passou a ser cobrado mais pela quantidade de registros produzidos do que pela qualidade do ensino realizado. Ensinar deixou de ser prioridade.
Essa lógica não melhora a educação. Ao contrário, empobrece a prática pedagógica, reduz o tempo de planejamento, impede a reflexão crítica sobre o processo de ensino-aprendizagem e transforma o cotidiano escolar em uma corrida contra prazos e sistemas. A escola passou a funcionar sob uma lógica de controle, desconfiança e vigilância permanente.
O resultado é previsível: sobrecarga, esgotamento e adoecimento docente. A responsabilidade pelo fracasso de políticas educacionais mal planejadas é transferida para o professor, que passa a carregar sozinho o peso de metas irreais, demandas administrativas excessivas e cobranças desconectadas da realidade da sala de aula.
Fala-se muito em valorização da educação, mas o que se entrega ao professor é mais trabalho burocrático, menos autonomia e nenhuma escuta. Nenhuma planilha ensina. Nenhum relatório substitui o vínculo pedagógico. Nenhuma plataforma resolve a ausência de condições reais de trabalho.
Enquanto a burocracia cresce, a educação perde. E a conta dessa escolha política e administrativa cai, todos os dias, no colo do professor.

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