sábado, 7 de fevereiro de 2026

Minha coerência não depende do apoio dos outros


A vida me ensinou a compreender que só tenho poder sobre aquilo que faço, não sobre a reação das pessoas. Essa consciência não me afastou da luta; ao contrário, tornou-me mais responsável por cada escolha, cada palavra e, principalmente, cada ação. Aprendi cedo que viver com coerência exige coragem, porque nem sempre o caminho correto é o mais confortável ou o mais aplaudido.

Ao longo da minha trajetória, enfrentei desafios profundos que me obrigaram a me posicionar na educação, na política e na defesa inegociável da dignidade humana. Defender uma educação verdadeiramente inclusiva significa, muitas vezes, contrariar interesses, romper com silêncios convenientes e enfrentar discursos que falam em inclusão, mas se recusam a praticá-la no cotidiano.

Esse processo se intensificou de forma decisiva a partir do momento em que sofri um AVC. Além do impacto físico e emocional, vieram a disciplina diária da reabilitação, a reconstrução da autonomia e a reafirmação constante do meu direito de continuar existindo, trabalhando com dignidade. A reabilitação não foi apenas corporal; foi também política e ética.

No retorno às atividades profissionais, encontrei não apenas desafios estruturais, mas a má vontade de muitos. Alguns criam obstáculos de forma explícita, burocrática e injustificável. Outros agem de maneira ainda mais perversa: escondem práticas excludentes atrás de gestos e discursos de suposta boa vontade. Esse capacitismo velado, institucionalizado e socialmente aceito é uma das formas mais violentas de exclusão, porque tenta se apresentar como cuidado, quando na verdade é controle e limitação.

Foi nesse caminho que aprendi, de forma definitiva, que palavras sem ações são apenas palavras  e, muitas vezes, discursos hipócritas. Por isso, passei a valorizar atitudes, escolhas concretas e compromissos reais. Inclusão que não se materializa em práticas é apenas retórica. Ética não se proclama; se vive.

A luta contra o capacitismo, especialmente quando atravessa o corpo e a história de quem luta, revela o quanto a sociedade ainda está despreparada para lidar com a diferença de forma justa. Mesmo assim, escolhi não negociar meus princípios. Apoio é importante, mas nunca foi condição para eu defender aquilo em que acredito.

Hoje, sigo buscando equilíbrio  não para me calar, mas para sustentar a luta com sabedoria. Continuo me posicionando, consciente de que não controlo reações, aplausos ou resistências. O que controlo é a minha coerência. E ela não depende do apoio dos outros.


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